Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Cinema

AVATAR
Há coisas na vida que nos mudam. Às vezes para sempre. Outras vezes nem por isso… Mas, verdade seja dita, tudo o que vivemos, experienciamos, contribui para o nosso crescimento intelectual e emocional.
Os filmes são um bom exemplo disso mesmo. Os bons filmes. Lembro-me de há pouco tempo ter visto um dos filmes que mais me impressionou, não pela sua superprodução (que também o foi), mas pela mensagem que transmitiu: AVATAR. Até podia ser um daqueles filmes que, apesar de ser considerado por quem sabe como uma grande produção, podia não “prestar para nada”… para mim, claro. Mas prestou, e digo porquê.
AVATAR, para além de ser um filme cujos efeitos especiais estão muito além do já visto e inventado, mostrou uma faceta do humano (curiosamente através da relações dos humanos com personagens não humanas!) completamente irreverente para os dias que correm e para o mundo em que vivemos: o amor incondicional entre os seres, independentemente da sua natureza, daquilo que os liga e da forma como esses laços crescem, e a sustentabilidade ambiental, dos planetas, maravilhosamente retratada neste filme. É, talvez por isso mesmo, um filme emocionante, porque repleto de cenas que - fôssemos mais conscienciosos, todos nós, (e se calhar mais inteligentes também) - nos fazem repensar o nosso papel neste nosso planeta Terra.
E o amor, este sentimento incaracterizável, tão peculiarmente retratado nesta produção cinematográfica? Penso ser desnecessária qualquer análise... Basta dizer que está lá tudo: a nossa capacidade para mudar, se quisermos, todos os nossos preconceitos, muitas vezes xenófobos e caracterizadores da nossa própria estupidez. E voluntária, ainda por cima.
Filme inovador na mensagem, no aspecto e no tratamento da emoção individual de cada um de nós, foi para mim também um momento de pausa… para reflexão. E, como simples ser humano, que inevitavelmente identificado com os retratados no filme, pude experimentar a sensação de duvidar de algumas acções humanas. E assim crescer mais um pouco.
Por isso mudei, talvez apenas um pouco apenas… mas aconteceu-me. E o curioso é que gostei, não só do filme mas sobretudo da mudança.
Se pensarmos um pouco mais profundamente, tudo o que foi dito neste AVATAR está já inventado há muito tempo: apenas não tinha sido materializado desta forma tão deliciosamente acutilante. Mas está tudo cá. Neste nosso mundo. Maravilhoso? Seja.
Violante Grilo

Autores de si Mesmos

AUTORES DE SI MESMOS

Numa época em que tudo o que se faz, se constrói, se pensa e se materializa nas escolas – assim estabelecem os nossos representantes ministeriais - em função das estatísticas pinceladas de verniz pseudo cultural, há sempre uma verdade absoluta que vem à tona: somos todos feitos de uma massa multiforme e, também, multifacetada e, nessa medida, quase como que automatizados, somos também agentes de uma forma de ser e estar nas escolas que é, em última instância, a imagem da escola portuguesa.
Mas se são os professores que conduzem o “navio” em mar tempestuoso, muitas vezes desgovernado, mercê de uma verdadeira intempérie que teima em não passar, também certo é que podem os alunos ajudar na labuta do leme para que também eles ajudem na orientação do caminho traçado e, assim, ajudem a salvar a embarcação, e a si próprios, também.
Podemos entender esta metáfora como uma forma de união, de “companheirismo”, de divisão de tarefas entre os educadores e os educandos. Será utopia?
É importante reflectir sobre a possibilidade que temos em “aproveitar” as valências naturais dos seres humanos que temos perante nós: os nossos alunos. Também eles, à sua maneira, desejam exprimir-se: estar, fazer, deixar acontecer, provocar, lançar desafios… essa é a verdadeira essência de todos nós e ela não se manifesta apenas em estado adulto… muito antes disso ela acontece em todos nós. E nos nossos alunos também.
Com a estrutura montada, as regras estabelecidas e o sistema organizativo próprios de uma escola, os alunos sabem até onde podem levar as suas vontades e terão, como qualquer um de nós, que cumprir com as premissas legais do seu espaço escolar. Porém, é na aula que eles podem espelhar a sua forma de estar no mundo, em função do que lhes vai acontecendo naquele espaço. Temos portanto, ali, na aula, todas as possibilidades de dar vida a vontades e intenções dos nossos alunos, para que a sua energia se materialize em tarefas autónomas, eficazes e dignas de registo e admiração.
Mas como? É minha crença que a simplicidade das relações interpessoais contribui grande e eficazmente para a tão desejada autonomia dos nossos alunos. Assim, a terapia do elogio, a valorização da sua identidade e a desvalorização do seu erro vai - talvez lentamente, é certo, mas a médio prazo com total eficácia – desmistificar a ideia pré-formatada de que não se consegue, não se acredita em si mesmo. O culto do optimismo, da perseverança e na crença das capacidades alheias transforma o outro num indivíduo com atitude, com auto conceito e auto estima.
Transmitir aos nossos alunos o conceito de auto valorização, associado às regras básicas do estar em grupo e – também – do estar consigo mesmo, contribui, na minha opinião, para uma posição mais positiva face às tarefas que se vão sucedendo, dia após dia. Mesmo a delegação de responsabilidades logísticas, exequíveis para os nossos alunos, em sistema rotativo, coloca-os perante o melhor de si mesmos e dá-lhes a segurança que necessitam para, “quase”sozinhos, triunfarem e valorizarem aquilo que são e conseguem. E quando isso acontece… os outros irão – mais ou menos lentamente – acreditar também.
É, fundamentalmente, a valorização efectiva e constante por parte do professor que transforma o nosso aluno num ser capaz de acreditar. Em si. Nos outros. E no mundo. E tudo acontece depois. Talvez o tal “verniz pseudocultural” deixasse de ser pseudocultural… e até deixasse de ser verniz…
Como diz o poeta “Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.” (Fernando Pessoa)
E ser autónomo é ser feliz. E a “felicidade exige valentia”.
Basta-lhes entender que têm as ferramentas.
A nós compete-nos mostrar-lhas.
Será utopia?
Violante Grilo

Resistentes

HERÓIS DO NOVO MILÉNIO

Quando falamos em heróis, em sagas e em aventuras que só a filhos de deuses maiores pertencem, pensamos em Hércules, Ulisses ou Aquiles… eventualmente nos heróis medievais ou renascentistas, que nos povoam a alma e os sonhos…
Na verdade, muitas e magníficas serão as qualidades daqueles que nos servem de referência e que admiramos até à exaustão: são sempre os heróis. Os nossos heróis. E os dos outros. Os que povoam o nosso imaginário colectivo e que nos dão alento para acreditarmos que gente de alma superior faz parte da nossa espécie, da nossa raça.
Mas o tempo passa e com ele os sonhos clássicos de algo que cresceu connosco e que tem apenas um nome: expectativas. Como se acordássemos de um sono profundo e, subitamente, entrássemos num mundo frenético, alucinante e psicadélico de coisas, pessoas - em construção ou não - silêncios, amores e desamores, atitudes e valores.
Assim é.
E assim se constrói e assim se metamorfoseia o Olimpo dos nossos heróis e semideuses…
É sempre um espaço privilegiado, o Olimpo do novo milénio… povoado não apenas por pequenos heróis mas também por outros mais avisados, mais experientes… com quadros interactivos ou não, com livros de ponto, com múltiplas salas, com gente boa que está lá sempre, para oferecer instrumentos com os quais pequenos e grandes heróis fazem pequenas e grandes maravilhas….
Assim é.
E, como em todos os Olimpos deste mundo, também neste habitam as personagens oponentes… e, curiosamente, nesta nova Era, as que mais determinam o destino dos pequenos e grandes heróis… Dizem-se chefes (do Olimpo, do estado, da nação e até do estado da nação…) … mas nós, os heróis dos quadros e dos livros escolares, sentimos que pouco … e, perante uma adversidade tal, temos medo… mas, como todos os bons heróis, prosseguimos… no crescimento, na maturação e na construção de novos sonhos e outros Olimpos, talvez esses só nossos.
As condições de crescimento e de construção de alicerces dos nossos alunos/heróis são precárias e desvirtuadas… e eles, mais ou menos, melhor ou pior, lá vão procurando crescer… e, apesar das contingências de um mundo ferozmente competitivo, alguns conseguem fazer a diferença. São os resistentes.
As condições de trabalho das personagens adjuvantes, dos heróis/professores, as condições de manuseamento dos instrumentos responsáveis pelo erguer de sonhos, de personalidades e de liberdades individuais são tão precárias e o terreno tão árido que qualquer diferença, por muito que aos olhos de outros possa parecer pequena, será sempre enorme, pela adversidade que a envolve. São os resistentes. Todos nós.
Assim é.
Seremos filhos de deuses menores? Talvez…
Porque, à distância de milénios, Ulisses, Aquiles, Heitor ou Hércules foram reconhecidos pelos seus semelhantes…
Mas, certamente, enquanto personagens adjuvantes, todos somos heróis…e não pouco. Contra todas as expectativas, permanecemos. É o alento de que um dia voltaremos a acreditar que deuses e heróis, pequenos ou grandes, habitantes deste ou daquele Olimpo, estejam todos do mesmo lado.Com raça e gente de alma superior.
E sem personagens fortes e oponentes. Porque estaremos todos do mesmo lado.
São estes os heróis do novo milénio: aqueles que, contra todas as expectativas, permanecem.
E por isso permanecemos. Assim seja.

Violante Grilo